‘O maior corno do mundo, com orgulho’: como é a vida de um casal que pratica cuckold em nome do prazer
De São José dos Campos, Vagner Macedo e Bella Mantovani contam a Marie Claire sobre sua tara na ‘traição’, a possibilidade de ter um recorde no Guinness e como vivem seus prazeres sem se esconder: ‘As pessoas achavam que iam nos humilhar, mas acharam errado’
O casal, que ganha a vida criando conteúdo adulto, já teve mais de 100 relações extraconjugais, com consenso e (pasme) sem repetir ninguém. “Nem é para não se apegar emocionalmente, porque isso não acontece comigo. Mas tem quem pegue e se apegue, e não tenho paciência para isso”, diz Bella. “Só tenho paciência com o Vagner”, diz em entrevista por vídeo para Marie Claire.
O feito dos dois impulsionou Vagner a buscar ser reconhecido como o Homem Mais Corno do Mundo — por ninguém mais, ninguém menos que o Guinness World Records, o livro mundial dos recordes.
Bella conta que, por mais que pareça uma brincadeira, os dois são alvos frequentes de preconceito e julgamentos, inclusive de pessoas conhecidas. Para viver os próprios desejos livremente, os dois passaram por uma separação, enfrentaram a religião e a família e criaram uma casca grossa para não ter medo de botar a cara a tapa.
O que os dois mais querem é que a sociedade entenda que o cuckold vai além de um fetiche ou de “safadeza”. Na verdade, pode ser uma forma pura de expressar amor e desejo.
"Quisemos mostrar nosso rosto porque decidimos estourar a bolha. Muitas pessoas preferem realizar fetiches escondido, e a gente taca o foda-se. Fazemos mesmo! Não devemos nada para ninguém. Gosto de ser livre. Julgue se você quiser, mas eu não tô nem aí”, diz Bella.
Cuckold: qual é a tara em ser feito de corno?
Por mais que o termo "corno" seja usado para falar em cuckold, o fetiche não é considerado uma traição. Isso porque as duas (ou mais) pessoas estão fazendo tudo com acordos prévios.
Ou seja: é uma tara totalmente normal e respeitosa, que leva em conta o consentimento, o prazer de todo mundo envolvido e o desejo de viver as próprias vontades sexuais com liberdade e honestidade.Podem existir várias configurações de acordo dentro do cuckold. Entre o casal, funciona assim: Bella transa com outras pessoas — homens ou mulheres, já que os dois são bissexuais — e Vagner assiste. Ele também tem a liberdade de “manipular” posições e carícias enquanto se toca.
“Sempre quis ver isso de perto. É como assistir um filme ao vivo, em que dá para sentir cheiros e textura”, conta Vagner. Mas por que querer ser corno? O que o deixa com vontade de ver a mulher transar com outras pessoas? “Sinto tesão em ver outra pessoa com tesão. Olho para o pé dela se contorcendo, o cara por cima, e imagino na minha cabeça o que ela está sentindo para estar com tanta vontade. Isso me toca. Essa é a grande sacada. Chega a ser até um exercício de empatia”, continua.
Para Bella, o mais gostoso nessas transas é justamente a excitação do marido. Mas não só: “Gosto de ver o cuidado que ele tem comigo. Não que ele não tenha no dia a dia, mas naquele momento me sinto uma pessoa muito mais especial. Ele fica cuidando, vendo cada movimento. Às vezes o cara está com a mão no lugar errado, ele vem e coloca num lugar que sabe que gosto. Então, o Vagner conduz a transa”, diz. E tem mais: “Sem contar que amo ver a forma como ele se toca. Gosto muito de ver a punheta”.
Esse cuidado de Vagner não está só em garantir que Bella tenha prazer, mas que ela seja respeitada e esteja confortável. “Se vejo que ela está incomodada, paramos na hora.”
‘A igreja estava acabando comigo e com meu relacionamento’
Bella e Vagner se conheceram na infância e se casaram cedo, ela com 17 e ele, com 19. Mas enquanto Vagner era pregador da igreja evangélica, Bella vem de uma família mais livre, em que o swing e os ménages eram naturais (desde que feitos escondido).
"Casamos cedo pela religião, porque queríamos ter relação logo", conta Bella. Quando "caíam em tentação", tinham de se confessar ao pastor. "Ele nos colocava em um banco e todo mundo olhava porque sabia o que tinha acontecido. Era uma merda", ela lembra.
O choque de visões entre eles foi tão grande que passaram um ano separados. "Precisei desse tempo para me ver como mulher de novo. Eu não me conhecia, não me tocava, meu psicológico estava horrível porque, por sete anos, minha vida era só viver a fé do Vagner. Me anulei muito. A igreja estava acabando comigo e com meu relacionamento. A fé ainda é minha base, mas comecei a explorar para me amar de novo", conta Bella.
Ao mesmo tempo, Vagner foi percebendo que sua forma de amar não era a mesma imposta socialmente e que, nas palavras dele,a igreja não era tão acolhedora quanto dizia ser. Largou o cargo de ministro de jovens, foi fazer teatro e também experimentou coisas novas — mas sempre de olho em Bella no Instagram.O desespero para voltar apareceu quando Bella postou um story bebendo vinho com um amigo em comum. Isso o fez sair da capital paulista até São José dos Campos, no interior do estado — onde o casal vive hoje. Foi quando começaram (longas) conversas sobre o que viveram e as próprias vontades.
Da repressão religiosa à liberdade sexual
Enquanto Vagner contou tudo, Bella demorou para abrir o jogo. “Até que um dia, esperei ela dormir e vi alguns vídeos dela transando com outros caras no celular dela. Na hora deu ciúmes, mas também deu tesão. É o misto de incômodo e excitação que me faz ter prazer”, conta Vagner.
“Como não tínhamos um relacionamento com diálogo antes, foi estranho falar do que fiz para ele. Mas, quando ele descobriu, taquei o foda-se e pensei que o que tivesse que acontecer, aconteceria”, acrescenta Bella.
A primeira “pulada de cerca” consensual aconteceu com um amigo fotógrafo de Vagner, adepto do meio liberal, que combinaram tudo para surpreender Bella. “Disse a ele que queria ver a Bella com outra pessoa na minha frente e que adoraria que fosse com ele. Marcamos uma sessão de fotos de lingerie com ela e, nos preparativos, ela enviou uma foto sem sutiã no grupo do WhatsApp. Foi quando vi que ela cedeu.”
O ensaio começou e o tal amigo começou a chegar perto, encostar mais e provocar Bella — que, mais uma vez, cedeu. “Não tive muita reação, só me joguei no sofá e curti o momento. Mas a primeira vez foi horrível”, ela diz, aos risos. O motivo? “Me deu uma ressaca moral amarga, fiquei sem acreditar que fiz aquilo.” Vagner sentiu o mesmo. “A sensação era de que eu tinha profanado meu casamento”, lembra.
Mas a vontade de fazer de novo logo reapareceu — e persistiu. Os dois foram aprimorando a comunicação e os acordos até ficarem completamente confortáveis com as transas.
A afronta em ser ‘O Maior Corno do Mundo’
Qualquer pessoa pode sugerir que o Guinness crie uma nova categoria. Vagner sugeriu o nome da conquista – de fato, “O Homem Mais Corno do Mundo” — e enviou as provas das mais de 100 relações extraconjugais consensuais, critério imprescindível para disputar uma vaga no livro. E sim, o casal tem provas, graças à criação de conteúdo adulto.
“Assim como Taubaté ficou conhecida como a cidade da grávida, quero que São José dos Campos seja conhecida como a cidade do corno”, diz Vagner, com sinceridade.
A vontade de ir atrás do título vem de uma revolta pessoal de Vagner. “Pensei em representar a minoria, as pessoas que vivem presas pela sociedade por quererem ser ou fazer certas coisas. Nada melhor que meu fetiche para isso, que é, sim, ser corno com orgulho.”
O preconceito vem da comunidade religiosa — mesmo que, segundo eles, padres e pastores estejam entre os compradores de seus conteúdos +18 — , mas também da família de Bella. O problema não é o fetiche em si, mas se expor por conta dele.
“Por termos um estilo de vida tido como diferente, nos olham como se fôssemos nojentos ou dizem que vamos ‘pegar doença’. Mas o que a gente mais faz é se cuidar. Fazemos os exames de 15 em 15 dias, e mesmo assim só transamos com outra pessoa com preservativo”, diz Vagner. “Acredito que nos cuidamos mais do que um casal tradicional. Tem homem que segue as normas mais de 30 anos depois descobre que tem um filho em outro lugar."
“Tenho orgulho do Vagner, porque desafiamos tudo e todos e, devagarinho, fomos fazendo as coisas do nosso jeitinho. Quando vi que estávamos no nível de um Guinness, falei: ‘Pô, amor, a gente tá nesse nível? A gente é foda pra caralho’. As pessoas achavam que iam nos humilhar, mas acharem errado”, celebra Bella.
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